• Epílogo

    Ao contrário da maioria esmagadora dos estudantes estrangeiros de Tübingen, eu acabei passando uma semana de Agosto na Alemanha, quando quase todos já tinha voltado para as suas respectivas casas em todos os cantos da Europa. Isso significa que, na prática, quase todas as despedidas - isso é, aquelas com que eu me importava - já tinham acontecido mesmo e só um pequeno punhado de amigos (eu gastei muita saliva na Alemanha para explicar que as coisas mais intensas são as menos numerosas, mas não sei se fui ouvido de fato...) ainda estava lá nos últimos dias. Não posso deixar de ressaltar que eu nunca ia ter conseguido sobreviver sem a ajuda de Viola Kammertöns - a alemã mais brasileira que eu já vi e que me fez perceber que, no Brasil, existe uma categoria de comida chamada "salgados" (incluindo coxinha, pão de queijo, esfiha, bolinho de queijo, quibe, pastel, bolinho de bacalhau, pão de batata etc) e que eles podem ser comprados num lugar chamado "lanchonete" . Além disso, eu com certeza teria conseguido perder meu vôo se não tivesse seguido o conselho da Dani Maciel (sim, esse é um nome brasileiro mesmo), que me recomendou pegar o ônibus da estação de Tübingen até o aeroporto de Stuttgart uma hora mais cedo, "por conta de segurança", mesmo que para isso eu tenha tido que comer às pressas minha última refeição alemã que foi Maultaschen com queijo e tomate. Se não fosse isso, nunca teria dado de tempo de imprimir minha passagem (remarcada desde Fevereiro, minha data de retorno inicial). Também não teria dado tempo de reequilibrar o peso de minhas malas, já que eu só poderia levar um único volume como bagagem de mão e, como uma das malas tinha cinco quilos ainda de folga e a outra mochilinha contava com exatamente cinco quilos. A única coisa que eu não esperava é que minhas malas fossem seguir uma matemática embirutada que faz 27+5 dar 35! Depois de abrir zíper, fechar zíper, colocar uma coisa ali e outra aqui, o peso ficou exato e finalmente pude presentear Christian com o pôster que decorou meu quarto durante esses dez meses.

    Depois de aterrisar em Frankfurt, a espera pelo voo de conexão até São Paulo já mostrou que, de um jeito ou de outro, eu já estava mais perto do Brasil: dezenas de pessoas com cara de nada e de etnia nenhuma, porções de "Silvas", "Pereiras", "Marianas", "Marcelos", "Pati´s", "Guilhermes", sem contar os apelidinhos dissílabos típicos da "baby language" e diálogos gesticulantes. De um instante, as palavras cheias de consoantes, as saladas de batata, os "Ja" travados com glottal stops , os Brezeln, os sucos de maçã e as conversas que nunca mais se repetirão ficaram para trás em algum lugar junto com a esperança de que um dia alguma máquina do tempo milagrosa possa restaurar os mo(nu)mentos de quase-perfeição que o tempo e a memória irão carcomer. Cada vez mais e mais pessoas falando em português à minha volta, as piadinhas gratuitas que só faz quem nasceu na América Latina, nada mais de comentários sobre turcos nem Döner: ao invés disso, a voz dos locutores da Rede Globo, chamada épica anunciando Corinthians X Flamengo, caixas eletrônicos de dezenas de bancos (até agora ainda não descobri porque é que precisa ter tantos bancos diferentes no Brasil..), placas de trânsito vermelhas e modelos de carros completamente esquisitos. Após desembarcar, ligo o celular e a tela do aparelho mostra "Oi" ao invés de "Vodaphone". Logo lembro também que, no Brasil, existem dezenas de operadoras de telefonia (também não sei ainda porque é que precisa haver tantas...). Minha nossa, onde é que eu estou?! É aqui mesmo que eu sempre morei? Porque é que essas ruas tem um contorno tão serpenteante? E porque as calçadas são tão diferentes uma das outras, se elas estão na mesma rua? E que arquitetura é essa das casas, que não parecem nada e não me lembram nenhum período da história? Porque é que essas lojas estão abertas no domingo?

    Eu chego em casa, mas lembro que agora eu não tenho mais uam chave de casa. Olho pro meu carro e lembro que, sim, eu sou uma pessoa que pode dirigir, mesmo depois de ficar 10 meses longe de um volante. Também lembrei que existe nota de 20 reais e que meu CPF precisa ser regularizado. Eu lembrei até que "CPF" existe. E também que não se pode jogar o papel higiênico no assento pois entope (no Brasil, pelo menos). Não tem mais gelbe Sack, preciso reaprender a como jogar o lixo fora. Havainas não é mais nada estiloso e não sei mais também onde fica o sabonete e as escovas de cabelo da minha casa. O fogão é de gás, com aquelas grades de ferro em cima que parecem um aparelho de tortura medieval. Ainda não tive coragem de sair na rua, mas provavelmente as pessoas não me olharão com cara de inimigo só porque eu sou um desconhecido. E agora? É aqui mesmo a que eu pertenço? Poderei eu sobreviver respirando esse ar semi-carbônico que deixa o céu de São Paulo com um degradê de aberração? E nunca mais verei de noite a Grande Balança e Escorpião que se desenham no céu? As aves que gorjeiam aqui, não gorjeiam como lá. E as árvores que crescem aqui não perdem as folhas no Outono como lá. Mas, não, não me permita Deus que eu morra, sem que eu volte pra lá.

  • Another brick in the wall

    De repente, eu desci no aeroporto Berlin-Schönefeld, depois de ter conseguido às pressas uma passagem pela German Wings após ficar sabendo que a minha carona conseguida pelo Mitfahrgelegenheit furou. De repente, eu estava de pé no saguão gigantesco do aeroporto semi minha irmã, que teve de voar de volta para Itália às pressas já que, de repente, minha mãe ganhou duas semanas de férias repentinas por conta da gripe suína e decidiu usar esse tempinho para visitar Trieste. Eu estava na frente daquelas linhas coloridas e emaranhadas e precisava me virar no mapa de transporte urbano de uma cidade sem ter googleado nem um pouco. Quem quiser conhecer a Alemanha mesmo, não pode ir para Berlin. Tudo bem, é certo que é a maior cidade, e também a capital e o palco dos episódios mais estapafúrdios da história européia do século XX.

    Mas, assim como em toda cidade grande, a urbanização parece desfigurar um pouco daqueles traços e costumes que normalmente se associa com o "típico" de uma região ou um país. Então, não espere ir para Berlin e encontrar aquela figura quase folclórica do alemão de suspensórios, chapeuzinho pontudo e caneca de cerveja na mão. Berlin é uma cidade grande e, por isso, tem também seus cantos sujos e nem tão belos assim, o que faz muitas pessoas preferirem Paris. Eu não estive nessa última, mas poderia dizer que a diferença entre elas é, basicamente, o fato de que a história de Berlin é profundamente marcada pela militarização. A maioria esmagadora dos edifícios (incluindo aí muitos históricos e turísticos) foi reconstruída após os bombardeios de 1944. Nessa época, a arquitetura se orientava mais pelo princípio básico de "construir com eficiência" do que "construir com beleza".

    Ainda assim, muita coisa conseguiu felizmente sobreviver aos horrores da guerra e o patrimônio histórico (dessa vez de apenas um século atrás e não de vinte e alguns, como na Itália! :) ) está por toda a parte. A multiplicidade de monumentos também não deixa de esconder os movimentos contraditórios que vão delineando a história: em um canto, o Brandenburger Tor continua imponente, exatamente como era quando Hitler abusou de sua resplandecência e sua localização estratégica para realizar o desfile das tropas SS. Ao mesmo tempo, a caminho do Siegessäule - outra obra de arte explorada pelo regime Nacional-socialista - uma estátua de um soldado armado exalta a vitória e a glória das tropas soviéticas por terem derrotado os cruéis e desumanos inimigos. Sem contar os museus e o centro criado em memória a Anne Frank, os marcos e monumentos em memória aos judeus exterminados no Holocausto podem ser vistos por toda a parte. (Sophia me mostra uma escola judaica próxima ao Alexanderplatz e me explica que, ainda hoje, viaturas de polícia precisam escoltar o horário de entrada e saída dos alunos). Como se não bastasse tudo isso, ainda há os marcos e as marcas do muro que separou vidas e mundos por mais de vinte anos e fez alemães apontarem armas contra os próprios alemães somente porque eles estavam do outro lado de uma linha.

    Só com essa primeira impressão que se pode ter de um passeio a céu aberto - sem entrar em nenhum museu, centro histórico ou afins - dá pra perceber que a cidade abriga as mais diversas contrariedades. Por um lado, os belos teatros, museus, o quase tão imponente Olympiastadion (que não pude visitar), o Zoologischer Garten (também não ousei pagar 17 euros de entrada, ainda que seja o maior zoológico da Alemanha e o ursinho polar mais popular esteja lá dentro!) e uma atividade cultural impressionante. Por outro lado, as pixações, os pedintes, os representantes de minorias nem tão minoritárias assim (turcos, punks, extrema-direitas, Aggros etc) e a paisagem nem tão "eco-friendly" estão lá pra mostrar que Berlin, mesmo sendo um dos pontos cardiais/cordiais da Alemanha, não é uma "cidade-luz" e nem uma "cidade maravilhosa". Isso pode deixar uma impressão nem tão agradável assim da cidade mas , antes que alguém me pergunte, já posso declarar que eu simplesmente me apaixonei por Berlin.

  • Et, Telefone, Minha Casa

    Não necessariamente nessa ordem. Mas isso é uma outra história. Quando eu aterrizar em Neurópolis São Paulo, continuo o contato imediato. -Peep-

  • Born to live in Berlin

    Eu arrumei malas, eu carreguei malas tentando chutar o peso delas, eu limpei o banheiro para poder entregar as chaves do meu quarto - para o meu vizinho emporcalhar dez minutos depois (agora não importa mais, eu não tenho mais nada a ver com ele), eu descobri que a gente guarda tanta coisa achando que vai precisar depois quando, de fato, deveria ter jogado tudo pela janela. No final, como no começo, todas as coisas no chão mostram, mais ou menos, quem a gente é. A vertigem de colocar toda a vida dentro de duas malas de 32 quilos me arremessou para Berlin, onde estou no exato momento. Não posso - na verdade, não quero - gastar meu pouquíssimo tempo contando algo que ainda nao vivenciei. Mas desde já posso adiantar que o Monumento ao Muro de Berlin, a Gedächtnis Kirche, o Zoologischer Garten e o Europacenter fizeram me convencer de que cometi um grande pecado de não ter vindo para cá antes. Mas depois - talvez se o blog ainda tiver razão de existir - conto como tudo isso se desenrolou até eu chegar aqui.

  • Nach dem Spiel ist vor dem Spiel

    Bom, na prática, o semestre já se foi. A prova de semântica/pragmática não foi tão monstruosa como eu esperava e as atividades da faculdade já ficaram para trás. Em Outubro, a pergunta que se ouve em todos os cantos é "Qual é o seu nome?" e "De onde você vem?". Em Julho e Agosto, a pergunta se transforma em "Quando você volta para o seu país?". Em Tübingen, as festas de  despedidas acontecem já há quase um mês sem parar, com direito a foto coletiva na ponte do Rio Neckar, os abraços e as ingênuas promessas de rever os amigos em algum futuro próximo. Normalmente, os estudantes ERASMUS fazem o estudo de intercâmbio por dois semestres - mas nunca mais do que isso. Isso quer dizer, no final das contas, que quase 1/8 da população de Tübingen é substituída por ano por uma nova leva de estudantes que vão vivenciar talvez "o melhor ano de suas vidas". Dizer adeus e ir embora pode ser ruim quando se teve tantas experiências marcantes - a despedida deve ser pior ainda para quem fica e vê círculos inteiros de amizade desaparecerem em alguns dias.

    Um ditado popular germânico diria "Depois do jogo é também antes do jogo". Isso mostra que, quando o assunto é futebol, europeu não tem vez (comecem a pensar nas expressões futebolísticas na linguagem cotidiana brasileira e vocês vão ver do que é que estou falando!). Mas, traduzindo em miúdos, o ditado quer dizer alguma coisa como "todo fim é um recomeço" ou algo parecido. Isso parece meio bobo mas, pensando bem, começa a fazer muito sentido se pensamos que nesse jogo não tem perdedores, nem ganhadores e frequentemente as regras não são muito claras. Quem jogou limpo, quem fez jogo de corpo, quem ficou no canto do campo, quem não saiu da banheira, quem correu e suou para "ficar na bola" (quem falou que só o s brasileiros tem idiomatismos esportivos? ), quem reclamou com o lateral que ficou amarrando a chuteira na hora H, quem ficou quieto, quem fez firula, quem não fez - no apito final, parece que todo mundo volta pro mesmo vestiário.

  • Metaphors, Lava and other dangerous things

    Em alguns dias a gente acorda e já sabe que o dia não vai ser como os outros. Principalmente quando se acorda uma hora depois do que devia por ter ficado acordado na noite anterior uma hora a mais do que devia preparando um seminário a ser apresentado dali a 48 horas. Mesmo tendo perdido a aula do curso sobre Saussure, minha espera recheada de certeza (ou seria melhor dizer "sangue frio"? ) não se deixou abalar na hora de apresentar o seminário sobre processamento cognitivo de metáforas para a matéria de semântica/pragmática. Resumindo em termos bem simples, a idéia é de que as metáforas exigem um esforço cognitivo maior para serem processadas pelas pessoas, mas em contrapartida também podem ser melhor absorvidas. É uma situação meio complicada ter de falar coisas com as quais não se acredita tanto assim; seria mais fácil se eu fosse um político, um vendedor de bugigangas ou simplesmente alguém que acredita que pessoas são como sabão em pó. Isso fica ainda mais complicado quando se precisa falar em língua estrangeira e o mais complicado de tudo quando se está diante de um público (ou "auditório", para os rhetoricians* ) que ainda teima em levar o referente a sério.

    Tudo bem, eu não tenho nenhum motivo para reclamar porque ninguém fez nenhuma pergunta imbecil pertinente sobre isso, o meu texto foi um dos mais maneiros - comparando com outros alunos que tiveram que apresentar temas cabeludíssimos - e a professora fez muitos elogios ao "caráter didático" da nossa apresentação. Eu sabia que a idéia de transformar as tabelas mirabolantes de psicolinguística em gráficos poderia render alguma coisa! Eu não posso deixar de agradecer aqui às aulas de estatística que tive no meu técnico de publicidade com a Prof. Joelma (que eu não sei se existe ainda): eu achava as suas aulas um saco, mas confesso que elas me salvaram depois de sete anos! Danke!

    Logo depois, prova do curso Wilde Wörter. A prova não tinha nada de excepcional, consegui terminá-la em menos de um quarto do tempo disponível. Confesso que me entediei em absolutamente todas as aulas do curso, que não pretendia ensinar propriamente vocabulário novo, mas sim técnicas de aprendizado para aprender e memorizar palavras novas. Fiquei muito frustrado ao ver que aquela barafunda cognitivista toda não era nada do que eu estava esperando e eu não ia mesmo expandir meu vocabulário com aquele curso. Mas depois fiquei cismando: não seria exatamente isso que faltava para mim - técnicas de aprendizado (e, portanto, de ensino)? Não seria exatamente isso (ou melhor, a falta disso) que deixa a formação do curso de alemão de letras parecendo um frankenstein pedagógico, que gera em quatro anos monstrinhos capazes de ler Adorno e Heinrich Böll no original mas que não conseguem conversar com o encanador ou escrever uma carta de apresentação? Levando o estalo de eureca mais longe, não seria exatamente essa a hora de pensar de novo no "sujeito" e seus "psiquismos"?

    A manhã do dia seguinte deixou a resposta bem clara: é claro que sim! E aquele pequeno extra-terrestre invisível que rodeia a minha cabeça e sempre conversa comigo nessas questões imbecis filosóficas me disse: como é que você pretende escrever uma redação de 60 minutos para o TestDaF sem ter as palavras em algum lugar da sua mente/cérebro? E como é que você acha que vai entender a parte de Compreensão Auditiva do teste de proficiência em língua estrangeira sem ter um Super-Cortador-de-Cadeias-Fônicas-em-Palavras na sua cabeça? E como é que você pretende passar no teste de Expressão Oral se não tiver uma fadinha sádica que te dá um choque elétrico cada vez que você não coloca o verbo no final da frase? Pois é, eu deveria ter ouvido meu etê particular antes, mas já era tarde demais para ficar pensando nisso, mesmo que os funcionários do Instituto de Línguas tenham atrasado quase meia hora para começar a prova. Foi quase um show de incompetência, principalmente para quem estava acostumado a fazer provas da VUNESP, organizadas com eficiência de táticas de guerra da S.W.A.T. Mas já era tarde demais.

    A entrada foi a Compreensão de Leitura. Até que foi suave, levemente salgada, deu para forrar o estômago. Já o primeiro prato, Compreensão Auditiva, foi intragável. Tive a impressão de que não souberam preparar direito, mas até agora não consegui engolir direito a salada que eu fiz na hora de anotar as respostas. Tudo bem, eu já conhecia o modelo do exercício, mas mesmo assim achei muito complicado ter de ouvir e pescar informações de uma entrevista cujo tema central era vulcões, domos de lava, fissuras, movimentos sísmicos e outros vocabulários que eu só ouço na TV quando acontece algum desastre (imagina se eu já pensei de usar essas palavras ativamente alguma vez ... ). É meio ruim ter de digerir o pressentimento amargo de ter deixado uma prova inteira queimar por causa de um ingrediente que faltou em algum lugar da minha cabeça.

    O segundo prato não estava lá tão apreciável assim, mas pelo menos deu pra mastigar tudo e escrever um texto sobre aulas particulares e renda familiar em 60 minutos. Como sempre, escrevi uma introdução elaborada demais e esqueci que os examinadores não estão nem aí para a minha opinião: eles só querem saber se eu consigo escrever gramaticalmente e com alguma coerência. Em alguns trechos, tive de fazer um macarrão verbal para substituir expressões que eu não conhecia em alemão, como "famílias carentes", "dependência financeira", "exigências do mercado de trabalho" entre outras. Até que não fui mal, mas tenho a impressão agora de ter pensado em excesso (como sempre...) e de que poderia ter escrito muito mais com muito menos conteúdo. Por último, a sobremesa em forma de Expressão Oral foi bem mais docinha e suave - pelo menos em comparação às outras partes do teste. Nessa parte, um computador gravava as minhas respostas enquanto eu enchia linguiças com espumas retóricas que se aplicam a absolutamente qualquer situação, como "pois bem, existem muitos pontos de vista sobre essa questão...". Isso não é tanto um problema considerando que essa parte da tarefa, assim como as outras, não está nem aí para a opinião do candidato, mas sim se foca na avaliação de pronúncia.

    Depois de tudo isso, o Benjamin já me esperava na cafeteria do Brecht-Bau para terminarmos os hand-outs do seminário sobre Música e Linguagem que iríamos apresentar dali a quatro horas mais ou menos. Sempre me sinto muito mal quando faço tarefas de última hora, porque sempre parto do princípio que quem tá sem tempo é sempre quem tem mais tempo de sobra. Mas depois não fiquei com a consciência tão pesada assim quando lembrei que já vi gente terminando apresentação de Power-Point para apresentar em congresso acadêmico pouco mais de 20 minutos antes de tomar a palavra. Foi bem complicado falar sobre um autor todo enrolado que a cada cinco parágrafos insiste em repetir que a música tem significado sem ter referência e sem ter semântica (como se isso fosse alguma novidade). Pior ainda é ter de falar sobre um assunto não muito empolgante para um público que dá muito valor para o desempenho retórico (até por isso eles fazem a graduação em...retórica! ) , isso é, conquistar a benevolência do público, captar a atenção, entre outras coisas especialmente importantes para pastores, palestrantes, apresentadores de TV, políticos, vendedores de bugigangas e pessoas que se vendem como sabão em pó. Com exceção da parte em que eu mostrei um esqueminha hjelmsleviano sobre conceitos de árvore em diversas línguas, o público ficou entretido com aspectos importantíssimos da minha apresentação, como a unha da mão esquerda, uma mensagem de celular, linhas curvas na borda do hand-out ou a textura da mesa de madeira. Eu me esforcei com meu alemão sofrível para mostrar para aquelas pessoas que existe vida além de preceitos oratórios em latim e que "signo" não é só uma bolinha idiota cortada no meio. Também queria dizer que índice, ícone e símbolo servem para muita coisa além de explicar sinais de trânsito e que isso também estraçalha a concepção bitolada difundida de música como uma determinada tradição ocidental européia, excluindo absolutamente todo o material sonoro que não se encaixa nessa panelinha cronologia suspeitamente restrita. Tive a impressão de que, no meio de Ciceros, Aristoteles e Quintilianos, esse lance de ficar discutindo signo, semiose e significação não faz muito sucesso. Tudo bem, eu já sabia desde antes que é muito difícil falar do sentido e dizer alguma coisa de sensato. Se mexer com o sentido é mesmo tão perigoso quanto me pareceu, então vou acabar fazendo xixi na cama por conta da semana inteira.

     

    * Pelo menos não são só os bacharéis em Letras que não tem nome. Quem faz retórica é o quê? Retoriqueiro? Retoricário? Retoricista? Retoricador? Retórico?

  • Plantão de Tübingen - sem musiquinha apavorante

    Katha fez 26 hoje e ganhou um cartão de aniversário de ganso. (Para os logicistas de plantão: não, não é o ganso que faz aniversário!) e parece  - assim eu espero! - ter gostado de seu presente teuto-nipônico: um mangá de contos de fadas dos Irmãos Grimm revisitados (Para os perversos de plantão: não, não tem nada de sacanagem!). Muitas, mas muitas felicidades para a Medizinerin mais empreendedora de toda a UKT! (Para os enxeridos de plantão: não, ela já é bem comprometida!)

  • Fora!...Referente?

    Parece cada vez mais óbvio que o mundo está se acabando e que não é mais o mesmo em que os nossos pais - ou mesmo nossos irmãos mais velhos - viveram. É o que dizem todas as vozes públicas - jornalistas, críticos políticos, religiosos pops, intelectuais, ex-BBB's, desconhecidos na fila do banco - desde o 11 de Setembro Americano e ninguém ousa contrariar. Se bem que, se me perguntarem, eu colocaria a hipótese de que a coisa toda começou quando o Lula foi eleito (com direito a cobertura épica da Rede Globo) e o Santos foi campeão brasileiro, mas isso já é coisa de quem analisa a história.

    Quem está fazendo a história, não se perde muito em cronologias e está soltando a línguapara dar um fora naquilo que não dá mais. Aliás, o "fora" está na moda ultimamente. Na USP, os estudantes rufam o "Fora Suely" (que já deve estar com o filme bem queimado e provavelmente nunca mais vai conseguir cargo nenhum, quer ela renuncie ou não) e o "Fora PM" - que, aliás, sempre foi refrão entre as militâncias estudantis e os funcionários uspianos mas só agora parece ter merecido a atenção do "mundo real" e da "imprensa normal". Em Honduras, o povo dá um "fora!" na muganga política que tentou dar um "fora" no seu presidente. No Senado, os seguranças de Sarney dão um "fora" em Danilo Gentilli como uma forma de evitar que a onda do "Fora Sarney", incentivada abertamente por Marcelo Tas, tire o Coronel Mostarda do jogo da política brasileira.

    E eu, como não quis ficar de fora da moda do "fora", vou aproveitar a oportunidade dos dois seminários que tenho de preparar e também dar o meu "fora!" para o referente. Durante o semestre, perdi a conta das paciências que eu perdi quando as pessoas no seminário de Semântica/Pragmática insistiam em discutir "qual é exatamente o significado de X" ou então ficavam tentando diferenciar o "sentido comunicativo" do "sentido da proposição". Agora, na semana que vem, vão me dar a palavra pra apresentar um seminário sobre compreensão e processamento cognitivo de metáforas e, como eu também sou um rapaz latinoamericano, também quero reclamar!

    Ainda na próxima semana, o seminário sobre semiótica musical também pode me dar a chance de apedrejar a vidraça do referente e mostrar que as coisas tem sentido sim, mesmo que não apontem nada no mundo real (o que, na verdade, elas quase nunca fazem! ). Sempre dizem que a música ou é completa de sentidos - afinal ela toca os sentimentos e pensamentos humanos de maneira quase misteriosa - ou ela não tem sentido nenhum - já que não se pode "traduzir" o que um Ré ou uma semi-colcheia significa. Dar o fora desse labirinto aparentemente circular não é tão complexo se dermos um fora na idéia de que os signos são caramujos que contém um sentido dentro.

    Bom, fora o meu fora de ter perdido muitas (mas talvez todas? pergunte aos semanticistas desempregados) fotos, é esse tipo de coisa que anda me deixando fora de mim. Mas agora é melhor eu dar o fora porque já está ficando tarde e lá fora já está bem escuro.

    Affe, que post mais chato, você só ficou falando de "fora" o tempo todo

    Pois é, e ainda tem gente que tem coragem de dizer que não existem phrasal verbs em brasileirês.

    P.S.: A máscara da carinha não tem nenhuma relação com a gripe suína, eu juro!

  • Breaking News

    Tá, tudo bem. Agora eu entendi porque os jornalistas não elaboram direito as notícias e porque elas vão ficando cada vez tão mais curtas que hoje em dia se resumem àqueles tecos de frases (aliás, parecidos com aquelas que dão para a gente nas aulas de gramática da 5ª série) que rolam na barrinha inferior da tela da tevê.

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    Calor, muito calor! E só tenho jaquetas no armário. |-|

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    Final de semana retrasado estive em München por quase três dias. A impressão geral que ficou é de que não é uma cidade das mais acolhedoras. Os guias turísticos exploram a importância histórica sinsitra da cidade oferecendo passeios como o "tour do terceiro reich" entre outras "atrações" de gosto duvidoso. Por conta do seu papel fundamental no período nacional-socialista alemão, a cidade é repleta de logradouros em memória ao sofrimento judeu. O que me marcou o pensamento é a seguitne pergunta: afinal, os judeus querem ou não esquecer o holocausto? (Se alguém tiver um pouco de curiosidade, pode conferir também o que Luiz Tatit fala sobre a duplicidade de esquecer em sua análise da canção "Saudosa Maloca"). Além disso, depois de München ficou também a dúvida se é pior dividir um quarto com dois árabes que mentiram abertamente sua origem e com comportamento no mínimo esquisito ou com quatro americanos absolutamente individualistas que chegam bêbados e rindo alto às cinco da manhã. |-|

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    Ainda a propósito, a professora do curso "Feritgkeitstraning Kurs" trouxe o documentário Stolpersteine, que trata basicamente de um artista que começou a cunhar pedras com o nome de vítimas do Holocausto e colocou-as no lugar de pisos nas calçadas de várias cidades alemãs. Além da perguntinha acima sobre o lembrei-de-esquecer, também incomodou muito o silêncio depois da tentativa da professora de motivar uma discussão sobre a seguinte pergunta: em que medida a arte pode influenciar a sociedade? Tudo bem, é o tipo de pergunta que nunca tem uma resposta definitiva e garante o emprego de professores de Sociologia, Estética, Literatura, Filosofia, História da Arte, críticos de Cinema e artistas pós-moderninhos (Nossa! Só agora que eu me dei conta de quanta gente vive de questões infinitas como essa!) Apesar de saber que nenhum Maracanã de filósofos conseguiu responder isso até hoje, foi realmente uma pena ver que pessoas jovens e bem instruídas - pelo menos supostamente - deixam passar a oportunidade de discutir isso em um ambiente amigável e inofensivo: as relações hierárquicas profissionais e os crespos debates acadêmicos raramente deixam chance para o "eu acho que".

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    Atividade para o curso "Wilde Wörter": qual é a sua palavra preferida em alemão. Escolher uma sempre é difícil para mim, mas para a apresentação tinha que ser assim mesmo e, dessa vez, eu escolhi Gewissensbiss (Remorso). Fiz uma explicação mais pessoal e passional do que nunca (coisa que eu raramente faço, prefiro me manter à natureza-mesma dos objetos), mas foi absolutamente frustrante ver que ninguém estava realmente ouvindo - isso é, além do professor. Ninguém deu a mínima para as minhas explicações de que os "i's" da palavra parecem algo cortando e remoendo a nossa consciência, já que a palavra "Remorso" em alemão é um composto de "consciência" (Gewissen) e "mordida" (Biss). A propósito, em português ela também contém a mordida em sua etimologia - ainda mal perceptível em "mors-" ou coisa assim - e um "re-" de repetição. Não, eu não me ligo muito em etimologias, mas tenho que agradecer à Dayane Almeida por esse achado poético - Paulo Henriques Britto? Não me lembro agora ...

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    Quando o Michael Jackson morreu, era pouco depois da meia-noite por aqui e eu estava numa festa - muito ruim, por sinal.

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    Muito, muito pra se fazer. Seminário sobre semiótica musical (88|) para o curso de "Linguagem e Música", seminário sobre processamento de metáforas para a matéria de "Semântica/Pragmática" e preparatório para o TestDaf. XX(

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    At last, but not at least: consegui perder todas as fotos que eu tirei desde março até aqui. Sim, eu sei que é uma pena. Sim, eu sei que é a coisa mais imbecil que um ser humano pode fazer. Não precisa comentar nada =(

  • Stra(s)sbo(u)rg

    Antes que eu esqueça de dizer: é realmente uma pena que eu não tenha nascido nessa cidade.

    Se ela se chama Straßburg ou Strasbourg, só depende se o sujeito vem do lado direito ou do lado esquerdo. Mas é certo que, ao longo da história, esse meio-a-meio nem sempre é uma característica positiva. Não me dou muito bem com cronologias (pra falar a verdade, sempre existem motivos muito bons para desconfiar delas), mas, até onde o meu cérebro pós-vestibulando conseguiu guardar as aulas de história e geografia, Straßburg pertencia na ALta Idade Média ao império carolíngio (Aliás, é engraçado como o ensino escolar de história tem "pontos-cegos" que fazem com que culturas e civilizações inteiras apareçam e sumam da tela sem explicar o porquê desses "cortes de câmera"). Depois de muitas pizzas políticas e algumas pelejas de espada, a cidade passou para as mãos do chamado Sacro Império Românico-Germânico em algum ponto do século 13. Depois, à época da guerra dos conflitos religiosos entre católicos e protestantes, Strasbourg voltou para o domínio francês até meados do século XIX, quando foi tomada novamente pelos germânicos na guerra franco-prussiana. No final da Primeira Guerra, os tratados de paz (ou teria sido melhor dizer "não-agressão"?) decidem que a cidade retorna para o território francês; até que ela seja mais uma vez ocupada pelas tropas da SS durante a Segunda Guerra. Depois disso, todo mundo sabe o que aconteceu e hoje em dia Strasburg é oficialmente francesa.

    Strassenschilder Straßburg
    Você sabe onde fica essa rua? Ah, você não fala francês? Droga ...

    Logo quando se chega na cidade, já se percebe nitidamente logo pelos ares de que se está em terras francesas. Não só a fisionomia das pessoas, mas também o próprio jeito de o tempo passar ressalta bem as diferenças do outro lado da fronteira. Pessoas (a maioria de meia-idade, claro!) sentadas nos cafés, conversam, curtem a praça e passeiam com uma calma que não lembram nem um pouco a pressa paulistana. Para a minha sorte, parece que os diabinhos piscantes e neônicos da cultura americana também não chegaram aqui, assim como na Itália. Não é muito difícil deixar passar uma loja ou um estabelecimento comercial despercebidos, já que eles contam com fachadas e placas sóbrios e nada cintilantes (o contraste fica bem nítido se compararmos com paisagens de Tokyo, New York ou São Paulo pré-Cidade Limpa). Além disso, não se vê pelas ruas aquela infinidade de logotipos, esses brasões da era do consumo, pendurados e sorridentes à espreita de um consumidor imprecavido.

    BRasoes Straßbourg
    Tudo bem, vai: a única diferença é que a família de nobres não quer te fazer gastar o seu dinheiro com algo que você não precisa.

    Não memória de ter visto nenhuma loja de uma grande rede de varejo e a maioria esmagadora dos estabelecimentos contam com um nome bem particular, visivielmente representativo de um certo "orgulho localista" e, provavelmente, sem a pretensão de abrir novas filiais e expandir seus tentáculos pelo mundo. É verdade que, como consequência disso, é impossível comer um "dogue prensado e um refri" ou então um "churrasquinho grego com refresco" ali na esquina e nem um "pastel com garapa". Assim como na Itália, e ao contario do outro lado do atlântico, comer é coisa séria e não pode ser feito de qualquer jeito.

    französischer Käse

    É muito fácil entender porque os queijos franceses combinam tão pouco com dois-hamburgueres-alface-queijo-molho-especial-cebola-piclies-com-um-pão-com-gergelim.

    95,760592650% das cidades europeias, a maioria da população é adulta (ah? eu já falei isso aqui? foi mal ...:>>) e, por isso, nada de rodas-gigantes ou fliperamas. A diversão é flanar por entre as feirinhas de coisas usadas (e outras nem tanto) na praça e andar de eclusa, enquanto as pessoas ficam te olhando dos cafés montados na margem do rio ou então simplesmente sentadas na grama.

    Margens do Rio Ill 2
    Como é bom trabalhar num café na beira do rio. Melhor ainda quando não tem pneu e sofá boiando nele!

    Margens do rio Ill

    Olha, lá vem mais um bando de turista ...

    ... eu falei que vinha!

    E para não dizer que não fiquei só enfeitando a cidade como se ela fosse um pedacinho de terra utópico, é bom lembrar que o bicho-crise está pegando muito mais feio na Europa do que na América Latina. Se algum barbudo de pouca credibilidade entre as classes mais abastadas falar isso, é melhor acreditar.

    demo straßburg 02
    Ué? Qual o problema em uma redução de 12% do salário? Você preferiria perder o seu emprego?

    Curiosamente, não tem tropa de choque "vigiando" a passeata e os manifestantes não vão ser taxados de "vagabundos" no dia seguinte...

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