Ao contrário da maioria esmagadora dos estudantes estrangeiros de Tübingen, eu acabei passando uma semana de Agosto na Alemanha, quando quase todos já tinha voltado para as suas respectivas casas em todos os cantos da Europa. Isso significa que, na prática, quase todas as despedidas - isso é, aquelas com que eu me importava - já tinham acontecido mesmo e só um pequeno punhado de amigos (eu gastei muita saliva na Alemanha para explicar que as coisas mais intensas são as menos numerosas, mas não sei se fui ouvido de fato...) ainda estava lá nos últimos dias. Não posso deixar de ressaltar que eu nunca ia ter conseguido sobreviver sem a ajuda de Viola Kammertöns - a alemã mais brasileira que eu já vi e que me fez perceber que, no Brasil, existe uma categoria de comida chamada "salgados" (incluindo coxinha, pão de queijo, esfiha, bolinho de queijo, quibe, pastel, bolinho de bacalhau, pão de batata etc) e que eles podem ser comprados num lugar chamado "lanchonete"
. Além disso, eu com certeza teria conseguido perder meu vôo se não tivesse seguido o conselho da Dani Maciel (sim, esse é um nome brasileiro mesmo
), que me recomendou pegar o ônibus da estação de Tübingen até o aeroporto de Stuttgart uma hora mais cedo, "por conta de segurança", mesmo que para isso eu tenha tido que comer às pressas minha última refeição alemã que foi Maultaschen com queijo e tomate. Se não fosse isso, nunca teria dado de tempo de imprimir minha passagem (remarcada desde Fevereiro, minha data de retorno inicial). Também não teria dado tempo de reequilibrar o peso de minhas malas, já que eu só poderia levar um único volume como bagagem de mão e, como uma das malas tinha cinco quilos ainda de folga e a outra mochilinha contava com exatamente cinco quilos. A única coisa que eu não esperava é que minhas malas fossem seguir uma matemática embirutada que faz 27+5 dar 35!
Depois de abrir zíper, fechar zíper, colocar uma coisa ali e outra aqui, o peso ficou exato e finalmente pude presentear Christian com o pôster que decorou meu quarto durante esses dez meses.
Depois de aterrisar em Frankfurt, a espera pelo voo de conexão até São Paulo já mostrou que, de um jeito ou de outro, eu já estava mais perto do Brasil: dezenas de pessoas com cara de nada e de etnia nenhuma, porções de "Silvas", "Pereiras", "Marianas", "Marcelos", "Pati´s", "Guilhermes", sem contar os apelidinhos dissílabos típicos da "baby language" e diálogos gesticulantes. De um instante, as palavras cheias de consoantes, as saladas de batata, os "Ja" travados com glottal stops , os Brezeln, os sucos de maçã e as conversas que nunca mais se repetirão ficaram para trás em algum lugar junto com a esperança de que um dia alguma máquina do tempo milagrosa possa restaurar os mo(nu)mentos de quase-perfeição que o tempo e a memória irão carcomer. Cada vez mais e mais pessoas falando em português à minha volta, as piadinhas gratuitas que só faz quem nasceu na América Latina, nada mais de comentários sobre turcos nem Döner: ao invés disso, a voz dos locutores da Rede Globo, chamada épica anunciando Corinthians X Flamengo, caixas eletrônicos de dezenas de bancos (até agora ainda não descobri porque é que precisa ter tantos bancos diferentes no Brasil..), placas de trânsito vermelhas e modelos de carros completamente esquisitos. Após desembarcar, ligo o celular e a tela do aparelho mostra "Oi" ao invés de "Vodaphone". Logo lembro também que, no Brasil, existem dezenas de operadoras de telefonia (também não sei ainda porque é que precisa haver tantas...). Minha nossa, onde é que eu estou?! É aqui mesmo que eu sempre morei? Porque é que essas ruas tem um contorno tão serpenteante? E porque as calçadas são tão diferentes uma das outras, se elas estão na mesma rua? E que arquitetura é essa das casas, que não parecem nada e não me lembram nenhum período da história? Porque é que essas lojas estão abertas no domingo?
Eu chego em casa, mas lembro que agora eu não tenho mais uam chave de casa. Olho pro meu carro e lembro que, sim, eu sou uma pessoa que pode dirigir, mesmo depois de ficar 10 meses longe de um volante. Também lembrei que existe nota de 20 reais e que meu CPF precisa ser regularizado. Eu lembrei até que "CPF" existe. E também que não se pode jogar o papel higiênico no assento pois entope (no Brasil, pelo menos). Não tem mais gelbe Sack, preciso reaprender a como jogar o lixo fora. Havainas não é mais nada estiloso e não sei mais também onde fica o sabonete e as escovas de cabelo da minha casa. O fogão é de gás, com aquelas grades de ferro em cima que parecem um aparelho de tortura medieval. Ainda não tive coragem de sair na rua, mas provavelmente as pessoas não me olharão com cara de inimigo só porque eu sou um desconhecido. E agora? É aqui mesmo a que eu pertenço? Poderei eu sobreviver respirando esse ar semi-carbônico que deixa o céu de São Paulo com um degradê de aberração? E nunca mais verei de noite a Grande Balança e Escorpião que se desenham no céu? As aves que gorjeiam aqui, não gorjeiam como lá. E as árvores que crescem aqui não perdem as folhas no Outono como lá. Mas, não, não me permita Deus que eu morra, sem que eu volte pra lá.
) não se deixou abalar na hora de apresentar o seminário sobre processamento cognitivo de metáforas para a matéria de semântica/pragmática. Resumindo em termos bem simples, a idéia é de que as metáforas exigem um esforço cognitivo maior para serem processadas pelas pessoas, mas em contrapartida também podem ser melhor absorvidas. É uma situação meio complicada ter de falar coisas com as quais não se acredita tanto assim; seria mais fácil se eu fosse um político, um vendedor de bugigangas ou simplesmente alguém que acredita que pessoas são como sabão em pó. Isso fica ainda mais complicado quando se precisa falar em língua estrangeira e o mais complicado de tudo quando se está diante de um público (ou "auditório", para os rhetoricians* 

Foi bem complicado falar sobre um autor todo enrolado que a cada cinco parágrafos insiste em repetir que a música tem significado sem ter referência e sem ter semântica (como se isso fosse alguma novidade



) para o curso de "Linguagem e Música", seminário sobre processamento de metáforas para a matéria de "Semântica/Pragmática" e preparatório para o TestDaf. 





